Foto: Felipe Ferreira Vander Velden, 2003

Karitiana

  • Autodenominação
    Yjxa
  • Onde estão Quantos são

    RO320 (2005)
  • Família linguística
    Arikén

A terra indígena e a aldeia

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A Terra Indígena Karitiana apresenta-se como um quadrilátero localizado inteiramente no município de Porto Velho, estado de Rondônia. Uma porção considerável do leste do território homologado incide sobre a Floresta Nacional do Bom Futuro.

A área apresenta cobertura vegetal do tipo floresta ombrófila aberta, com alguns trechos de floresta ombrófila fechada. Cortado por inúmeros igarapés afluentes do rio Candeias, o terreno eleva-se na direção leste, onde está a Serra Morais, local de importância histórica e simbólica para os Karitiana. Esta área foi deixada de fora da terra demarcada, assim como todo o território que se estende dos limites da área indígena até o rio Candeias, e entre este e o rio Jamari, que os Karitiana apontam como território tradicional do grupo e almejam, algum dia, recuperar. A recente tentativa (2003) de reocupar a área a partir da instalação de uma aldeia às margens do Candeias – fora, portanto, da demarcação atual – e da criação de um GT da Funai para estudar a ampliação do território foi violentamente frustrada por fazendeiros locais que atearam fogo à maloca, destruindo-a (em setembro de 2003).

No momento, a Terra Indígena Karitiana apresenta-se livre de invasões. Num passado recente, foi alvo da exploração madeireira e mineradora (cassiterita). Fazendas de gado cercam os limites setentrionais da área, mas o perímetro restante é integralmente ocupado pela mata.

Distante aproximadamente 100 km de Porto Velho, o acesso à única aldeia Karitiana é feito pelo asfalto da BR-364. Na altura do quilômetro 50 da rodovia inicia-se uma estrada de terra de cerca de 45 km que leva, pelo meio da floresta, à aldeia.

A aldeia atual – Kyõwã, literalmente “boca [sorriso] de criança”, “pois a aldeia é bonitinha como sorriso de criança” –, é dividida ao meio pelo igarapé Sapoti, afluente do rio Candeias. Na margem esquerda do igarapé, onde desemboca a estrada de acesso à aldeia, localizam-se a sede administrativa e as estruturas instaladas pela Funai, além das residências de parte das famílias. Na margem direita do igarapé, está situada a maior parte das residências familiares.

As casas karitiana atuais seguem o modelo regional, de duas águas, mas a matéria de sua construção varia: há moradias de madeira, de taipa e mesmo algumas construções de alvenaria. As construções antigas, erguidas com troncos, cipó e palha de babaçu– ambi atyna, “casa redonda” – foram abandonadas há algumas décadas, mas os Karitiana orgulham-se de recordar sua construção: há duas delas na aldeia, na extremidade meridional de cada uma das margens do igarapé; a da margem direita é bem maior e representa, aos olhos dos índios, modelo fiel das casas de antigamente, aquele ensinado aos índios por Botyj a divindade criadora.

Construídas com esforço demorado de alguns mais velhos, essas imponentes construções funcionam, hoje, não mais como moradias, mas como “igrejas” (o termo é dos Karitiana): reinterpretadas à luz da oposição religiosa que cinde os Karitiana atualmente, as ambi atyna são, hoje, literalmente, “casas de Deus”. No passado, dizem, abrigavam uma família extensa organizada em torno de um homem de prestígio – “chefe” –, que com sua família ocupava a porção mais distante da porta; os homens casados situavam-se na parte central, e os jovens solteiros junto à entrada. As residências atuais abrigam, em sua maioria, uma família conjugal.

A proximidade com Porto Velho resulta em intensa mobilidade dos índios, que visitam freqüentemente a cidade em busca, sobretudo, da Funai e dos serviços de saúde. O órgão indigenista mantém alojamentos anexos ao seu prédio principal – a Casa do Índio – quase sempre ocupada por uma ou mais famílias karitiana de passagem por Porto Velho. O transporte é facilitado pelas viaturas da Funasa, da Cunpir (Coordenação das Organizações Indígenas de Rondônia e Oeste do Mato Grosso, entidade que integra as numerosas associações indígenas na região), do Cimi-RO e da própria Funai que, ao menos uma vez na semana, cumprem o trajeto entre a aldeia e a capital.

Por esta razão, os Karitiana contam com um sistema de atendimento à saúde razoavelmente eficaz. O posto médico possui material e medicamentos básicos para atendimento local, e – isso é importante reter – é administrado por uma auxiliar de enfermagem e dois agentes de saúde, todos Karitiana. Alguns jovens resolveram dedicar-se ao aprendizado de conceitos básicos de enfermagem, com o objetivo de que a comunidade se tornasse independente de enfermeiros brancos. A enfermaria local fica por vários meses nas mãos dos membros da comunidade, que sabem administrar remédios para as principais doenças e a diagnosticar os casos de malária de forma mais exata, através da leitura de lâminas de sangue. Os casos mais complicados são encaminhados para Porto Velho. No entanto, muito resta por ser feito. A ocorrência de malária, por exemplo, ainda é bastante elevada: como se sabe, Rondônia registra uma das taxas mais altas de incidência da doença no Brasil.