Foto: Vincent Carelli, 1982

Karipuna do Amapá

  • Outros nomes
  • Onde estão Quantos são

    AP2.421 (Funasa, 2010)
  • Família linguística
    Creoulo

Rituais

Lá no Fundo, quando a lua está descendo pra lá, boniiiiiita, então os bichos estão dançando lá no Fundo. (...) É lá que nos vamos. (...) Aí nós vamos cantar, aí nos vamos beber, nós vamos dançar com nossos bichos. (depoimento da pajé Elza, aldeia Manga, 1992).

Os Turés são considerados pelas famílias do Curipi como ocasiões de dançar, beber e cantar junto com os seres sobrenaturais chamados de karuãna, e de oferecer-lhes caxiri, como retribuição às curas de doenças que propiciaram por intermédio dos pajés. Os participantes de um Turé correspondem à clientela de um pajé, àquele grupo de famílias que a ele recorre em casos de enfermidade. Assim, os Turés reúnem famílias geralmente aparentadas, que têm em comum a confiança em determinado pajé, e o reconhecimento do conjunto de seres sobrenaturais que são considerados zami (amigos), kamahad (camaradas) ou karuãna deste pajé.

karipuna_amapa_5

Centrado na figura dos pajés, cada Turé abrange as particularidades de seu próprio universo de karuãna. Acredita-se que os xamãs mais "fortes" conseguem agrupar um maior número de karuãna, os quais lhes ensinam muitas músicas de Turé, e por isso são capazes de cantar várias noites sem repetir nenhuma canção. A força advinda dos karuãna também permite que façam o diagnóstico adequado das doenças e consigam curá-las com êxito, de forma que há muita gente para preparar caxiri (os parentes dos doentes retribuem a cura aos karuãna do pajé oferecendo-lhes caxiri) no Turé de um pajé "forte", e a dança dura muitas noites.

Os Karipuna preferem fazer os Turés em um fim de semana de lua cheia no mês de Outubro, o qual marca o fim da temporada seca e, portanto, antes das primeiras chuvas. Mas várias contingências podem alterar a data ideal, inclusive a tentativa de evitar que vários Turés sejam realizados no mesmo dia. Assim, os pajés fazem as festas também em noites sem lua, iluminadas com lamparinas, até o começo de dezembro, se as chuvas atrasarem tanto. Mesmo aquelas aldeias que têm motor de luz fazem uso das lamparinas durante os Turés, pois os karuãna não gostam de barulho. Há Turés, no entanto, que têm lugar em certas datas festivas, como o Dia do Índio, ou em comemorações nas cidades vizinhas, e que são considerados "demonstrações", mais do que propriamente ocasiões para festejar com os karuãna.

A preparação de um Turé começa com muita antecedência, como também ocorrem com as festas de santos. No final de um Turé, após o discurso do pajé, um grupo de homens se propõe a ajudá-lo no ano seguinte, com o gesto de carregar os mastros do Turé nas costas. São chamados tet dãse (cabeças da dança) e devem auxiliar o pajé em todos preparativos, além de contribuir para animar a festa, tocando as flautas, cantando e puxando as danças.

Os pajés entrevistados afirmam que a longa preparação do Turé se dá através de sonhos, durante os quais viajam para "o Fundo", ou para "outros mundos”, onde participam de Turés com seus karuãna, também chamados "bichos". São estes rituais oníricos que inspiram os pajés a organizarem seus Turés "nesse mundo”: ali aprendem as pinturas dos bancos, dos mastros, sua disposição no pátio da dança, também chamado laku, bem como novas músicas. Estas são também ensinadas por seus karuãna, de modo que cada melodia é considerada particular de cada pajé, sinais de seus contatos com os karuãna, sendo extremamente malvisto o fato de “imitar" músicas alheias.

A partir dos sonhos, portanto, os pajés arrumam o laku, o qual é delimitado por uma cerca de bambus, e o piroro, dentro do qual são dispostos os bancos e os mastros enfeitados. Para a arrumação, convocam os tet dãse, geralmente com um ou dois meses de antecedência, tempo necessário para a confecção dos bancos, mastros e enfeites corporais: coroas de penas, colares, adornos dorsais, maracás.

Ao lado das explicações e práticas dos pajés, os Karipuna fazem uso de recursos católicos, na forma das rezas, das promessas e das ladainhas. As festas de santos são comemoradas em vários pontos do rio Curipi e ao longo de todos o ano e tem na “Festa Grande”, o Divino Espírito Santo, o seu modelo.

A festa do Divino

A festa do Divino é considerada pelos Karipuna como a sua festa maior, la Ghã fet, como dizem em patois. São duas semanas de festejos que reúnem na aldeia Espírito Santo aqueles que se consideram parte da "comunidade do Curipi". As demais aldeias se esvaziam nessa data, pois quase todas as famílias residentes no Curipi encontram-se festejando na aldeia Espírito Santo. Também aqueles que se consideram Karipuna mas residem fora do Curipi, seja em outras aldeias do Uaçá ou do Oiapoque, seja nas cidades vizinhas de Oiapoque e Saint Georges, não deixam de se diri­gir para o Curipi nessa ocasião. E também os que se encontram em cidades mais distantes, como Caiena, Macapá ou Belém do Pará, retornam de tempos em tempos para festejar e pagar alguma promessa ao Divino. É na Festa Grande, portanto, que se pode visualizar de forma alegre e dinâmica aquilo que é difícil de se encontrar em outros momentos da vida do grupo, pois é na festa que "a sociedade" Karipuna toma corpo.

A Festa Grande segue o calendário católico. Em uma quinta-feira de maio comemora-se a ascensão de Jesus Cristo aos céus, quando o mastro do Divino é levantado. Dez dias depois é comemorado o dia de Pentecostes, a descida do Espírito Santo, ocasião em que o mastro é derrubado. É nesta segunda ocasião que os festejos são mais importantes e animados. Entre os dois dias há uma série de atividades preparatórias e de encerramento, de forma que os festejos do Divino começam muito antes da quinta-feira da Ascensão e terminam depois do Domingo de Pentecostes. Entre as duas datas, há um curto período de cinco ou seis dias em que as famílias retornam para suas aldeias e retomam seus trabalhos rotineiros.

O sábado anterior à Ascensão é o dia de Maiuhi Xapel ou “Convidado da Capela”. Assim que amanhece, os rojões anunciam o começo dos dias festivos. Por volta das oito horas tocam o sino da capela e a Casa da Festa começa a ficar cheia. Algumas mulheres se revezam na cozinha, preparando a refeição ou coando o caxiri. Os homens também trabalham na limpeza de peixes e da caça mais fresca. Os festeiros preocupam-se em servir bebida a todos. Aos poucos, homens e mulheres começam o serviço de limpeza do terreno onde receberão os participantes.

Na quarta-feira uma equipe de foliões sai da aldeia em busca de um tronco para fazer o mastro do Divino e à noite acontece o primeiro baile, o qual é interrompido à meia-noite para a primeira Ladainha. Todos vão à capela e, depois da oração, fazem fila para beijar as fitas do Espírito Santo no altar e os demais santos. Depois todos retornam ao baile, que continua madrugada adentro.

Na quinta-feira, dia da Ascensão, o mastro é levantado e se tem mais um dia de farta comida, bebida, cantos e danças. Passados nove dias da Ascensão, no sábado véspera de Pentecostes, os festeiros fazem novamente a “alvorada” com rojões. E novamente a vila do Espírito Santo começa a ficar cheia e animada, com rojões anunciando a chegada dos barcos de outras aldeias.

A véspera do Pentecostes é o dia da procissão da Meia-Lua, na qual vários barcos e canoas dirigem-se até a pequena ilha do cemitério. A procissão desce a rampa da aldeia com crianças à frente, seguidas das mulheres, todas com velas acesas; logo atrás vêm os homens, alguns carregando as bandeiras, outros o andor do Divino, bastante enfeitado com fitas e flores. Por último, o conjunto musical dos foliões – cavaquinho, violões, viola e violino – toca diversas músicas religiosas para “acompanhar o santo” durante o trajeto. Num barco com cobertura entram o andor do Divino, as bandeiras, o conjunto musical e as “promesseiras”. O barco do santo é acompanhado por diversas canoas e voadeiras que se encostam umas às outras, oferecendo bebida durante o trajeto. Quando chegam em frente ao cemitério Karipuna, o conjunto para de tocar e os instrumentos de corda dão lugar às batidas do tambor que acompanha o canto do cemitério. Os barcos fazem duas voltas em frente a cemitério e retornam para a aldeia, em frente da qual fazem mais duas voltas. Ali é entoado o Canto da Chegada da Meia-Lua.

Uma última canção, o Canto da Entrada da Meia-Lua, é entoada dentro da capela, para onde todos se dirigem em procissão, acompanhando o Divino. Depois da oração, tudo se passa como na véspera da Ascensão: os cantos das seis horas da tarde, ladainha à meia-noite, muita comida, bebida, a entrega do salão aos festeiros e o baile animado pela madrugada afora.

No dia seguinte, quando é propriamente comemorado o dia da descida do Espírito Santo, também fazem o canto da Alvorada e os cantos das seis da manhã. Antes da hora do almoço, preparam a Mesa dos Inocentes, uma refeição servida solenemente para as crianças, que se dirigem ao local em procissão.

No final da tarde começa a cerimônia para a derrubada do mastro. Como na festa anterior, as crianças são chamadas pelo sino para subir à capela e sair numa pequena procissão até o mastro. Um rapaz sobe no mastro e retira a bandeira do Divino. Em seguida, usando um machado enfeitado com fitas coloridas, cada festeiro dá um golpe para derrubá-lo.

Somente no começo da noite a música na Casa da Festa é interrompida e o cacique da aldeia toma a palavra para perguntar quem se dispõe a ser festeiro no ano seguinte. É assim que a festa vai chegando no fim, com a promessa de recomeçar no ano seguinte.

Outras leituras

Para uma descrição detalhada e análise dos Turés e da Festa do Divino entre os Karipuna, ver o livro de Antonella Tassinari, No bom da festa: o processo de construção cultural das famílias Karipuna do Amapá. SP: Edusp, 2003.