Foto: Fabíola Silva, 1998

Asurini do Xingu

  • Outros nomes
    Assurini
  • Onde estão
    Pará
  • Quantos são
    124 (2006)
  • Família linguística
    Tupi-Guarani

A iniciação de Boaiwa

O seguinte caso foi testemunhado por Regina Müller: De volta da abundante coleta de jabutis, Boaiwa disse na aldeia que tinha visto cinco Tiwá (espírito da onça). Momuma comentou o sinal: quando se vê Tiwá, está próxima uma guerra com inimigos. E prosseguiu: índio bravo vem brigar. Tiwá é onça, nambu, jacu, mutum. É todo branco, tem barba branca. Os pajés, que são Tiwá, comem carne de veado como fazem as onças. Essas conversas precedem os preparativos da grande refeição ritual de jabutis e o ritual xamanístico de invocação do espírito da Onça, que duraram de 21 a 25 de fevereiro de 1981. Boaiwa era o personagem principal. Como guerreiro (mboakara), ofereceu a comida a todo o grupo para que a morte do inimigo não "fizesse mal".

No começo de março, o estado de saúde de Boaiwa piorou. Ele estava com muita tosse e, com o surto de gripe que se abateu sobre toda aldeia, começou a pôr sangue pela boca. A comunidade se mobilizou em torno de um ritual xamanístico (do espírito Karowara). Boaiwa, entretanto, não ficou na posição de paciente para receber o tratamento espiritual do xamã. Ao contrário, sentou-se na roda dos xamãs e participou com eles da refeição ritual e das baforadas do charuto.

Os Asurini disseram que Boaiwa não estava doente, mas tornando-se um xamã (pazé opotara). Portanto, ele não poderia tomar mais injeções, já que o medicamento atrapalhava o contato com os Tiwá. Era necessário aprender a dominar o contato, o que só aconteceria quando ele "pegasse" o ka´a (substância do espírito que entra no corpo do pajé). No momento dos contatos iniciais dos Tiwá com os pajés, Boaiwa se debatia, se jogava no chão, andava e esturrava como uma onça. As mulheres ficavam encostadas nos esteios das casas, aparando Boaiwa para que este não se ferisse. Os pajés experientes controlavam o espírito. Seus corpos ficavam inertes com a perda da consciência.

Boaiwa estava apenas iniciando seu aprendizado. Devia fumar muito charuto, dançar, jejuar e "pegar" Tiwá. Vários rituais de pajelança se sucederam, então, para que o novo xamã pudesse se exercitar. Nesse quadro, a pedido dos xamãs, os medicamentos que vinham sendo administrados pela atendente de enfermagem do posto da Funai foram suspensos. Os Asurini me pediram que explicasse à atendente porque Boaiwa não poderia mais tomar injeções, causando desentendimento entre mim e os funcionários locais do órgão.

Os maraká do Tiwá prosseguiram intensos, medicação suspensa, Boaiwa vomitando sangue. Só terminariam quando ele conseguisse controlar a agressividade do espírito, que atirava flechas contra seu corpo. Apesar dos cuidados dos familiares, Boaiwa, passado alguns dias, mostrava sinais de exaustão e ferimentos no corpo, de tanto se debater no chão e contra os esteios das casas. O sangue que saía de sua boca com a tosse era atribuído pelos asurini aos hábitos carnívoros do Tiwá.

No dia 6 de março, entrei na casa onde se realizavam os rituais e encontrei Boaiwa sozinho, na rede, tentando aparar o sangue que saía da boca. De olhos arregalados, pediu para ser levado a Altamira porque iria morrer. Nessas circunstâncias, os pajés, reunidos em torno da rede de Boaiwa, acabaram concordando com a aplicação de anti-hemorrágico. Apenas uma injeção. Dois dias depois chegava à aldeia o Dr. Frederico Ribeiro, médico enviado pela sede da Funai, em Brasília, para ficar dois meses na aldeia asurini, dos "índios ameaçados de extinção".

Boaiwa estava melhor e o sangue pela boca havia cessado. Os "exercícios" para transforma-lo em pajé continuaram intensamente, por mais de um mês, ainda contrariando as recomendações da atendente de enfermagem e o médico. Boaiwa foi durante muito tempo o pajé mais jovem dos Asurini do Xingu. Atualmente, porém, são os seus netos Imudi´i (11 anos) e Parajuá (15 anos) os mais recentemente iniciados.