Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1991

Araweté

  • Autodenominação
    Bïde
  • Onde estão Quantos são

    PA450 (Siasi/Sesai, 2012)
  • Família linguística
    Tupi-Guarani

Amizade

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O casamento não é objeto de nenhuma cerimônia, e a acelerada circulação matrimonial dos jovens faz dele um negócio corriqueiro. No entanto, sempre que uma união se torna pública com a mudança de domicílio de alguém, produz-se uma sutil comoção na aldeia. O novo casal começa imediatamente a ser visitado por outros casais, seu pátio é o mais alegre e bulhento à noite; ali se brinca, os homens se abraçam, as mulheres cochicham e riem. Dentro de alguns dias, nota-se uma associação freqüente entre o recém-casado e um outro homem, bem como entre sua mulher e a mulher deste. Os dois casais começam a sair juntos à mata, a pintar-se e decorar-se no pátio do casal mais novo. Está criada a relação de apihi-pihã.

 

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A marca característica da relação apihi-pihã é a "alegria": tori. Os apihi-pihã (amigos de mesmo sexo) mantêm um convívio de camaradagem jocosa, sem nenhuma conotação agressiva; eles oyo mo-ori, "alegram-se reciprocamente": estão sempre abraçados, são companheiros assíduos na mata, usam livremente dos bens do outro. Quando os homens da aldeia saem para as caçadas coletivas, as mulheres apihi-pihã vão dormir na mesma casa. Na formação da dança do cauim, é esse o laço focal entre os homens. Os amigos de sexo oposto (a apihi e o apino) recebem o epíteto de tori pã: "alegrador".

O cimento dessa relação é a mutualidade sexual. Os apihi-pihã trocam de cônjuges temporariamente, segundo dois métodos: oyo iwi ("morar junto"), pelo qual os homens vão à noite à casa das apihi, ocupando a rede do amigo, e de manhã retornam para as esposas; e oyo pepi ("trocar"), pelo qual as mulheres passam a residir por alguns dias na casa dos apino. Em ambos os casos, porém, o quarteto é sempre visto junto, no pátio de um dos casais. Os casais trocados costumam sair à cata de jabotis, tomando direções diversas; à noite se reúnem para comer o que trouxeram. Essa mutualidade sexual, assim, é uma alternância, não um sistema de 'sexo grupal'.

O contexto privilegiado para a efetuação da relação de amizade é a mata, especialmente no período da dispersão das chuvas, quando pares de casais assim ligados acampam juntos (no começo da estação do mel, em setembro de 1982, as unidades mínimas de coleta quase sempre envolviam grupos de apihi-pihã). Na floresta, os casais trocados saem para caçar e tirar mel, reunindo-se à noite: "o dia é da apihi, a noite da esposa". As expressões "levar para caçar", "levar para tirar mel", "levar para o mato" evocam imediatamente os laços apihi/apino. Para saber se um homem era mesmo apino de uma mulher (em vez de simples amante ocasional), o critério decisivo era este: "sim, pois ele a levou para o mato em tal ocasião". A relação é assim orientada - o homem leva a mulher à floresta, domínio masculino. A floresta, o jaboti e o mel são os símbolos da 'lua de mel' Araweté, que não se faz entre esposo e esposa, mas entre apihi e âpino; e não envolve um, mas dois casais.

O ciúme está por definição excluído desta relação; ao contrário, ela é a única situação de extra-conjugalidade sexual que envolve seu oposto, a cessão benevolente do cônjuge ao amigo. Mesmo entre irmãos, que têm acesso potencial aos respectivos cônjuges, há margem para ciúmes reprimidos e para desequilíbrios: um homem pode freqüentar a esposa do irmão sem que o mesmo saiba, queira ou retribua. Já a relação apihi-pihã pressupõe a ostensividade e a simultaneidade: é uma relação ritual de mutualidade.

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O complexo simbólico da relação apihi-pihã é absolutamente central na visão de mundo araweté. Ter amigos é sinal de maturidade, assertividade, generosidade, força vital, prestígio. A apihi é 'a mulher', pura positividade sexual, sem o fardo da convivência doméstica. E um apihi-pihã é mais que um irmão, em certo sentido; é uma conquista sobre o território dos tiwã, dos não-parentes, estabelecendo uma identidade ali onde só havia diferença e indiferença: é um amigo.

A freqüente associação econômica entre quartetos de apihi-pihã não envolve trabalho agrícola, para os homens (as mulheres podem ir juntas à roça tirar milho, pilá-lo etc.), mas a caça: a cooperação agrícola supõe pertencimento à mesma família extensa ou setor residencial, o que não pode ocorrer entre apihi-pihã. De qualquer forma, a província por excelência da amizade é a mata no período em que o milho "oculta-se" (ti'î, como se diz também da lua nova). 

 

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É clara a compensação entre a amizade e a uxorilocalidade: para o jovem recém-casado, o amigo é o contrário do sogro em cuja roça ele deve trabalhar. Nas festas, os apino e apihi se pintam, enfeitam e perfumam mutuamente; quando se vê um quarteto profusamente decorado, com muitos brincos, a cabeça emplumada de branco, o corpo brilhando de urucum, rindo e se abraçando, não há dúvida: são apihi-pihã. Caça, dança, sexo, pintura, perfume, o mundo dos apihi-pihã é um mundo ideal. No céu, a relação entre os deuses e as almas dos mortos é sempre representada pela amizade sexual. Os mortos se casam no céu com os Maï, têm filhos, vivem como aqui. Mas os cantos xamanísticos sempre põem em cena as almas acompanhadas de seus apino ou apihi celestes - como convém às ocasiões festivas. Um dos eufemismos para a morte de alguém alude a este caráter celestial da amizade: "iha ki otori pã kati we" - "ele se foi, para junto de seu 'alegrador'".

Um casal pode ter mais de um outro associado como apihi-pihã, e não há nenhum adulto na aldeia que não chame pelo menos uma meia-dúzia de gente pelos termos da amizade. Mas essas relações se atualizam consecutivamente; é raro que um casal tenha mais que um só outro como parceiro ativo em um dado momento, devido à dedicação exigida pela amizade. As relações não são transitivas: os amigos de meus amigos não são necessariamente meus amigos. É usual que dois irmãos, que não podem se chamar pelos termos de amizade nem partilhar cônjuges, tenham casais de amigos em comum. Trata-se portanto de uma relação diádica e local, envolvendo os casais da aldeia numa rede que se superpõe à teia de parentesco.

Recasamentos por viuvez ou divórcio suscitam a necessidade de se decidir sobre a renovação dos laços de amizade. Se um membro do quarteto morre, é considerado desejável que se reatualizem as relações, promovendo uma troca oyo iwi.

Não é incomum que as trocas temporárias de cônjuges terminem virando definitivas. Aí se diz em sentido próprio que os homens trocaram (oyo pepi) de esposas. A troca definitiva desfaz a relação, que perde o seu sentido.

Embora a relação de amizade envolva dois casais e centre-se no acesso sexual ao cônjuge do amigo, os laços entre parceiros de mesmo sexo são os fundamentais; são eles que persistem preferencialmente após viuvez ou divórcio, e que precisam ser reatualizados. O amigo de sexo oposto é sobretudo um meio de se produzir um apihi-pihã - e isso vale particularmente para os homens. Se um cunhado é o que não se pode deixar de 'obter' ao se conseguir uma esposa, um amigo é o que se quer obter ao se estabelecer relações com uma apihi.

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Os apihi-pihã são recrutados entre os tiwã, por definição: isto é, transformam em tiwã aqueles que assim se ligam. Irmãos reais não podem ser amigos. Os Araweté sempre me corrigiam, quando eu designava dois irmãos por apihi-pihã por constatar que haviam trocado (definitiva e domesticamente) de esposas: "apenas aos tiwã é que chamamos apihi-pihã". Essa distinção é importante, pois um tiwã é o oposto de um irmão, mas quando um dos primeiros é transformado em amigo, ele partilha de uma semelhança com o irmão, o acesso lícito às respectivas esposas.

Há, enfim, duas relações centrais no mundo social araweté: entre irmão e irmã, e entre amigos de mesmo sexo. A primeira se caracteriza pela solidariedade e respeito, e é o ponto de apoio da afinidade e da reciprocidade; a segunda pela liberdade e camaradagem, e é o foco da mutualidade. As relações entre cunhados e irmãos de mesmo sexo são pouco marcadas, mas parecem ocultar antagonismos latentes - como demonstra o apoio do germano de sexo oposto nas querelas conjugais, e a competição e ciúmes velados que juntam e opõem irmãos frente às mesmas mulheres. A relação entre marido e mulher opõe-se àquela entre irmão e irmã por manifestar livremente os dois aspectos interditos nesta: sexo e hostilidade. Já a relação entre amigos de sexo oposto é idealmente positiva (e, positivamente, ideal): apino e apihi não brigam, ou deixam automaticamente de estar nessa relação. Finalmente, a "alegria" da amizade entre amigo e amiga se opõe ao "medo-vergonha" (respeito) entre irmão e irmã.