Foto: Francisca Arara (Diaká), 2005

Arara Shawãdawa

  • Autodenominação
    Shawanaua
  • Onde estão Quantos são

    AC545 (Siasi/Sesai, 2012)
  • Família linguística
    Pano

Cosmologia e rituais

Atualmente, os mais idosos são os “guardiões da memória” Arara, procurando sempre que possível transmiti-la a seus descendentes. Nota-se um considerável interesse dos mais jovens em aprender os mitos e os rituais praticados pelos Arara, com maior intensidade em tempos passados. Hoje em dia, os rituais são praticados sem uma periodicidade bem definida, o que não implica dizer estarem ausentes. Praticam ainda hoje o ritual do “mariri”, da “injeção do sapo” e do “sinbu”.

O primeiro é uma dança indígena, também encontrada entre outros grupos Pano. Atualmente, é praticado principalmente como uma forma de manter a coesão do grupo, ressaltando a identidade Arara. São os mais antigos, aqueles que falam a língua fluentemente, que durante o ritual cantam e ensinam os mais jovens.

O ritual do sinbu (cipó/ayahuasca) ainda é praticado por alguns Arara, tento a maioria do grupo participado de um ou de outro desses rituais. No entanto, alguns Arara não costumam mais ingerir o sinbu, mesmo tendo feito uso dele em algum momento. Em período anterior à introdução dos Arara no sistema produtivo da borracha o uso do sinbu era mais recorrente, inclusive para sessões de cura, quando o pajé consumia a bebida e buscava os males no paciente para retirá-los e trazer de volta a saúde. De acordo com um dos Arara:

O finado meu pai era pajé. Quando a pessoa estava doente, assim com febre, com ardor, com uma outra doença, quando ele via que ia morrer, o papai tomava. Tomava e ia cantar para aquela doença, porque a pessoa estava com aquela doença, ele ia cantar. Quando você via que ficava bom, no outro dia ele dizia que a pessoa ia ficar boa. Quando via que não ficava bom, que ia morrer, papai também dizia que ele não escapava (João Martins, 10/03/2000, Cruzeiro do Sul).


A partir da década de 1990, alguns Arara aderiram à doutrina do Santo Daime, fortemente presente na cidade de Cruzeiro do Sul, tendo sido construído um templo na aldeia Foz do Nilo. A introdução da doutrina do Santo Daime na Terra Indígena não contou com a adesão de todos os Arara, poucos sendo aqueles que se consideram daimistas, os quais chegam a sofrer certa represália pelos Arara que fazem um uso “tradicional” do cipó. Há portanto, entre os Arara, duas formas de usar ritualmente a “ayahuasca”. A primeira por aqueles que guardam a forma tradicional de consumir o cipó, chegando mesmo a usá-lo para cessões de cura, e a segunda, por aqueles que consomem o cipó com a intenção de partilharem da doutrina do Santo Daime.

Um outro ritual característico dos grupos Pano, e praticado ainda hoje pelos Arara, é aquele voltado para recuperar a sorte do caçador. Quando este está “enrascado”, com “panema”, ou seja, quando não consegue pegar a caça, os Arara preparam o ritual da “injeção do sapo”, para recuperar as qualidades essências do caçador: pontaria, visão, audição e sorte. Pegam o sapo “campô” e retiram dele, com um graveto, o “leite” que fica ao longo de seu corpo - o leite que sai da cabeça do sapo é utilizado apenas no rapé aplicado no cachorro do caçador. De posse do leite do sapo, queimam dois ou três pequenos pontos circulares na pele do caçador com cigarro, ou com braça, para introduzirem o leite. Colocam sobre a queimadura pequena quantidade do leite, suficiente para gerar vômitos e excreção, estimulados também pelo grande consumo de caissuma [bebida fermentada de mandioca] antes da aplicação da injeção. No outro dia, o caçador já estará pronto para continuar desenvolvendo suas atividades com maior destreza e eficácia. Segundo o Arara Chico Cazuza:

A injeção é, assim, quando uma pessoa está fraca. Quando sobe essas ladeiras, que nós chamamos aqui terra. Quando a gente termina de subir a terra fica aquela zoada na cabeça, e dá aquela fraqueza assim nas pernas. Aí a gente toma o leite do sapo, a injeção que é para melhorar. Aí limpa tudo, o que a gente sente, a gente melhora mesmo. Mas a gente precisa tomar um pouco de algumas coisas que é para limpar também o estômago, porque a gente provoca [vomita]. Na hora em que a gente toma a injeção, que põe o leite do sapo em cima, no que trisca já está na cabeça da pessoa, esquenta tudo. Esquenta a orelha, aquela zoada mesmo, a pessoa não agüenta, corre e vai provocar [vomitar]. Aí aquela pessoa provoca amarelo, porque aquele amarelo é que é a fraqueza (Chico Cazuza, 17/02/2000, Raimundo do Vale).



Os Arara atribuem algumas propriedades medicinais à injeção do sapo, não estando sua utilidade restrita apenas às crenças do grupo quanto a sua capacidade de “desenrascar” o caçador. O mesmo ocorre com o sinbu, o qual possui também diversas propriedades medicinais, além de operar no mundo metafísico. Existem ainda outros rituais praticados pelos Arara, visando desenrascar o caçador, como o ritual do uso do rapé:

a pessoa raspa o pó do osso do veado, ou então do porco, da canela do veado, e do porco a gente raspa o osso da coxa, e faz aquele pozinho, aí raspa aquele leite do sapo também, que a gente põe em uma tabuazinha, a gente raspa e mistura, aí torra com um pouquinho de tabaco. A gente faz o rapé. Para tomar o rapé assim ainda é melhor que tomar a injeção. Você cheira (Chico Cazuza, 17/02/2000, Raimundo do Vale).



Um outro ritual praticado pelos Arara, e que visa também melhorar as habilidades do caçador, desenrascando ele ou seu cachorro, é o da defumação com tipi. De acordo com um dos caçadores Arara:

O tipi é para dar defumação, quando a pessoa está enrascada também, a pessoa toma defumação também. Com cabelo do veado ou do porco. A gente põe no sol para enxugar. Bem cedinho a gente toma aquela defumação para poder ir para a mata, para poder caçar. Você fica em cima, aí defuma e vai caçar. A gente faz três vezes. Por acaso a gente faz hoje de manhã, dia de quinta-feira, aí na outra quinta-feira é outro dia de defumação, na outra, outra defumação. A gente faz três vezes (Chico Cazuza, 17/02/2000, Raimundo do Vale).




Os rituais acima descritos são praticados em geral próximos às residências, no terreiro ou no interior das casas. Mas a aquisição dos elementos essenciais para os rituais são provenientes da mata, sendo encontrados em quase toda a extensão da Terra Indígena. Contudo, afirmam os Arara haver uma maior concentração do sapo campô na região dos igarapés Nilo e Grande.

A existência dos mencionados rituais vem de um tempo mítico, sem uma datação precisa. Como mencionado por um dos Arara mais idosos, ao se referir à injeção do sapo:

"...isso é desde o começo do mundo. A vacina do sapo é bom para quem está com cansaço na perna, para a pessoa engordar, para a pessoa matar caça, é muito bom. Para dor de cabeça é muito bom. A pessoa que dorme muito, toma aquela vacina do sapo, passa. Eu tomei muita vacina de sapo (João Martins, 10/03/2000, Cruzeiro do Sul).


Os mitos Arara são contados em especial pelos mais velhos, mas alguns jovens já começam a aprendê-los e a reproduzi-los. Os mitos são narrados na língua Arara ou em português e, como em praticamente todas as narrativas míticas, é possível constatar uma variação nas versões contadas, mas não na estrutura. Assim, a narração do mito de origem dos Arara é bastante longa e sofre algumas variações na forma de contar, dependendo do narrador. De maneira bastante resumida, os principais elementos desse mito são os que seguem: existia uma maloca com diversas crianças, e próximo ao roçado um pé de Sumaúma, onde morava um gavião. Quase todos os dias esse gavião saía para caçar e trazia alimentos para o seu filhote. Quando a caça começou a acabar ele passou a pegar as crianças indígenas. Comeu todas as crianças menos uma.

Nesse momento um “caboclo” da aldeia resolveu matar o gavião, antes dele “acabar” com os índios. Quando ele conseguiu matar o gavião, após muita dificuldade, tendo construído uma escada para chegar ao ninho, colocou as penas dele dentro de um cesto. Em uma noite esse cesto começou a fazer um barulho, que o “caboclo” pensou serem baratas comendo as penas. No dia seguinte, pela manhã, ele abriu o cesto e não tinha baratas, só as penas. Após várias noites escutando o barulho, e no dia seguinte pela manhã conferindo o cesto e não encontrando o que fazia o barulho, um dia ao repetir a ação do cesto saíram cantando de felicidade todas as tribos Pano, cada uma dizendo o seu nome, Shawãdawa, Yawanawa, Kaxinawa, Xaranawa, Duwanawa, Poyanawa e outras. É interessante notar aqui que na cosmologia Arara tanto eles quanto os outros grupos Pano teriam se originado das penas de um mesmo gavião, de onde é possível inferir também uma proximidade sócio-cultural e lingüística.