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Cartilha sobre DST e aids em Tukano é lançada em oficina para adolescentes do Rio Negro do Amazonas

09/03/2009

Fonte: COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) - http://www.coiab.com.br/coiab.php?dest=show&back=index&id=325&tipo=N



Uma cartilha sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis e aids na língua Tukano foi lançada no dia 06 de março, durante a 1ª Oficina de Formação de Multiplicadores em Direitos Indígenas, DST/aids e Valorização da Vida, que acontece na Maloca da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em São Gabriel da Cachoeira (AM), até o dia 07 de março. A oficina realizada pelo Fundo das Nações Unidas (UNICEF), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (OELA) tem o objetivo de treinar 45 adolescentes indígenas do Rio Negro do Amazonas para se tornarem multiplicadores destas informações, em suas aldeias.

De acordo com o coordenador do escritório do UNICEF em Manaus, Halim Girade, o artigo 30 da Convenção sobre os Direitos da Criança determina que nos países onde existam pessoas de origem indígena, não pode ser negado a uma criança que pertença a tal povo, o direito a ter sua própria cultura ou utilizar seu próprio idioma."É um direito da criança e do adolescente indígena ter acesso a publicações em suas próprias línguas", frisou o coordenador.

A Cartilha em Tikuna foi produzida pela COIAB, OELA e SUSAM, com financiamento do UNICEF, e tradução do português para a língua indígena pela FOIRN. "Além de combater sérios problemas enfrentados pelos nossos adolescentes, esse trabalho é muito importante para fortalecer nossa cultura", considerou o coordenador da COIAB, Jecinaldo Sateré.

De acordo com a coordenadora de projetos da OELA, Charlene Ribeiro, a cartilha foi construída pelos próprios indígenas em projeto realizado pela SUSAM, e depois, adaptado para os adolescentes indígenas. "Tivemos o cuidado de usar uma linguagem simples, para que os adolescentes possam ter uma boa compreensão de todos os temas abordados", diz.

Nas atividades, a técnica do departamento de DST/aids da Secretaria do Estado do Amazonas (SUSAM), Zuleide Pereira, destacou a importância de se investir na atenção básica para prevenir as doenças sexualmente transmissíveis e aids. "Antes de tratarmos uma doença, o mais importante é evitarmos a contaminação, e para isto, a formação de multiplicadores de informações traz resultados efetivos", avaliou.

De acordo com a coordenadora municipal do Programa DST/HIV/aids de São Gabriel da Cachoeira, Leoni de Jesus dos Santos, foram identificados 269 casos de DST no município, em 2008. Antes de 2004, foram notificados quatro casos de HIV; desde então, nenhum outro exame realizado no município apresentou resultado positivo. "Orientamos todas as pessoas com idade sexual ativa a realizarem o exame de HIV e a se prevenir usando o preservativo", ressaltou.

Principais desafios
Alcoolismo, drogas e suicídio foram os temas discutidos no terceiro dia da oficina, na atividade conduzida conduzida por técnico de Saúde Mental da SUSAM. A violência associada ao uso abusivo de álcool e outras drogas (como cocaína e maconha), e o fenômeno dos suicídios, são consideradas, hoje, as piores formas de violência que acometem crianças e, principalmente, os adolescentes e jovens indígenas na região do Alto Solimões e de São Gabriel da Cachoeira.

De acordo com a conselheira tutelar de São Gabriel da Cachoeira, Nilce Almeida, das 983 ocorrências registradas no Conselho Tutelar, em 2008, a maioria está relacionada à desestruturação familiar ocasionada pelo alcoolismo ou drogas. "Conflitos familiares são nosso principal atendimento, e o consumo de álcool e drogas são a causa desses problemas", ressaltou.

Segundo Maximiliano Souza, em sua pesquisa "Alcoolização e Violência no Alto Rio Negro", produzida em 2004, as diversas modalidades de violência provocadas pelo uso abusivo do álcool entre, principalmente, os jovens indígenas, não se restringem a um grupo étnico, etário ou a gênero específico. Incidem nos jovens, uns contra os outros e contra os pais; nos homens casados, contra a sua esposa e filhos; e até entre as mulheres e destas com os maridos por motivos de ciúme.

Souza explica que importantes alterações foram agregadas ao consumo de bebidas alcoólicas pelos indígenas nos últimos tempos: a mudança na forma de fazer o caxiri, a introdução de outras substâncias contendo álcool (como a cachaça, por exemplo), o incremento das situações consideradas adequadas para beber e também, o símbolo de status que a cachaça passou a significar, levando em conta que "há uma diferenciação daquele que a adquire" por ser um artigo caro. Por isso, sugere que a alcoolização e a violência nas comunidades indígenas sejam discutidas a partir de dois temas: adolescência e gênero.

São inúmeros os caminhos e possibilidades que se apresentam para explicar e também intervir nos casos de violência e uso abusivo de álcool e drogas nas comunidades indígenas. Mas, o mais importante, é considerar que se trata de um fenômeno coletivo e que por isso, deve ser tratado como tal. Ainda segundo o pesquisador, na perspectiva da intervenção é fundamental que se implante políticas públicas que valorizem a cultura e a identidades dos povos e que, qualquer ação que traga solução para o problema seja construída em parceria com os grupos indígenas.
 

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