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Falácias e superstições

20/11/2003

Autor: AZEVEDO, José Carlos

Fonte: JB, Outras Opiniões, p. A13



Falácias e superstições

José Carlos Azevedo
Professor

O Ocidente deve aos árabes a identificação de duas funções essenciais da ciência: habilitar-nos a conhecer e habilitar-nos a fazer. Com exceção de Arquimedes, os gregos se interessaram, inicialmente, pela primeira função; talvez porque vivessem à custa do trabalho de escravos, não lhes interessavam a técnica e a ciência, que vieram a conhecer através da superstição e da magia. Os árabes buscavam a pedra filosofal, o elixir da vida eterna e a transformação de metais em ouro, o que lhes despertou interesse pela ciência, a matemática e a astronomia, para as quais deram contribuições importantes.
Afastar superstições é atitude recente e um exemplo é a criação da Royal Society no século 17, já mencionada no Jornal do Brasil. Quando a praga e o incêndio devastaram Londres, um comitê da Câmara dos Comuns atribuiu o ocorrido ao desgosto dos deuses e, sem saber por que ficaram assim, culparam Thomas Hobbes, proibiram a divulgação de suas obras e a imputação passou por verdadeira porque não houve mais incêndios nem pragas. ''Post hoc, ergo propter hoc'' - ''depois disso, logo, por causa disso'', é a falácia que ainda hoje motiva superstições e preconceitos.
Exemplos dessa natureza constam das conferências de Bertrand Russell em Oxford reunidas no livro The Impact of Science On Society (Allen & Unwin, 1952) e vêm a propósito dessa algaravia sobre os OGMs, organismos geneticamente modificados, a soja em particular. As modificações genéticas são comuns e, não fossem elas, ainda estaríamos disputando galhos de árvores com nossos primos chimpanzés e gorilas, em selvas africanas; nossos cérebros teriam ainda um terço da massa atual, não teríamos o instinto da linguagem, o raciocínio abstrato nem outros atributos que deles nos diferenciam.
A edição deste mês da revista Pesquisa, da Fapesp, publicou um primoroso trabalho da professora Claudia Izique sobre os organismos geneticamente modificados (OGMs), alertando para o comprometimento da pesquisa e do desenvolvimento da ciência no Brasil, causado pela questão da soja. Essa tecnologia permite produzir insulina para diabéticos, hormônios para anêmicos e nanomélicos e ''até 80% do queijo disponível no mercado nacional''. É usada para produzir vacina contra a hepatite B, que afeta 3 milhões de brasileiros anualmente. O Instituto Butantã produz 34 milhões de doses anuais.
A Embrapa, enfatiza a Dra. Izique, desenvolve projetos de OGMs para produzir algodão, milho, batata e mamão imunes a insetos, além de feijão resistente a diversos vírus (''o plantio do feijão vem sendo abandonado porque os produtores não ganham dinheiro''). A Dra. Izique cita trabalhos relacionados ao arroz OGM; na UFRJ, para aumentar sua tolerância a pragas e intempéries; na UFRGS, para desenvolver vacina contra o carrapato Boophilus Micropolus, que reduz a produção de carne e leite e transmite protozoários; na Esalq, onde modificam geneticamente o eucalipto para torná-lo mais resistente e aumentar sua biomassa.
No século 21, pasme o leitor, ainda persiste a querela entre ciência e superstição, entre cientistas de universidades e da Embrapa e burocratas sem qualificação científica; a Embrapa espera há três anos a autorização burocrática para produzir feijão e cana resistentes a vírus e intempéries. O arroz OGM desenvolvido no ETH, Suíça, evitará anualmente a morte de cerca de 1 milhão de crianças por deficiência de vitamina A e a cegueira de outras 350 mil, mas seu plantio é contestado alhures por ''ecopirados'', apesar de o International Council for Science ter comprovado o consenso de 50 cientistas autores de trabalhos sobre OGMs, publicados entre 2000 e 2003, relacionados à segurança do seu uso; mas nem isso interessa aos burocratas, nem saber que 80% da soja, 38% do milho e 70% do algodão produzidos em 2003 nos Estados Unidos são OGMs e que o custo do plantio da soja diminuiu US$1,1 bilhão com a economia de agrotóxicos. Logo virão pajelanças contra o uso dos OGMs.
''Nada merece mais o nosso apoio que a promoção da ciência e da literatura. Em cada país, o saber é a base mais segura da felicidade pública'' (G. Washington, discurso no Congresso, 8/1/1790)

José Carlos Azevedo escreve para o JB às quintas-feiras

JB, 20/11/2003, Outras Opiniões, p. A13
 

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