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Ex-madeireiro, indigenista monitora único sobrevivente de povo massacrado em RO

19/12/2010

Autor: Lucas Frasão

Fonte: Globo Amazônia - http://www.globoamazonia.com/




Altair Algayer iniciou carreira em 1992 e duvidava da existência de isolados.
Hoje, é quem melhor conhece o 'índio do buraco', que vive isolado na mata.

O único indígena sobrevivente de um povo ainda desconhecido de Rondônia vive isolado em uma ilha de floresta de 80 quilômetros quadrados e cercada por fazendas desmatadas. Ele tem cerca de 50 anos e recorre ao arco e flecha quando um estranho tenta se aproximar. Seu único "amigo" (o homem que melhor o conhece e que ele sabe quem é) é o sertanista Altair Algayer, chefe de proteção aos índios isolados no vale do Guaporé.

Algayer monitora há mais de dez anos o território do "índio do buraco", como ficou conhecido o sobrevivente, que teve todos seus parentes mortos num massacre que começou em 1985, por pressão de proprietários de fazendas na região, segundo hipótese da Fundação Nacional do Índio (Funai). O sertanista leva pequenas ferramentas e alguns alimentos para o "índio do buraco", mas evita encontrá-lo pessoalmente, pois já percebeu que ele não quer contato.

Mas certa vez, Algayer estava no mato sozinho e acabou ficando cara a cara com o índio. "Eu o vi primeiro. Ele não me viu, estava pegando uma fruta no chão. Fiquei quieto. A hora que ele me viu, estava a uns 5 metros na minha frente. O que fazer? Fiquei quieto e ele me observando, achei que ia perguntar o que eu estava fazendo. Aí tive a iniciativa e o chamei. Mas foi o sinal para ele ir embora. Virou as costas, deu uma voltinha, pegou o facão e foi", lembra o sertanista. "Em outras vezes, ele também te olha e já pega o caminho da casa, que é onde se sente protegido. A primeira coisa que faz lá dentro é pegar todas as flechas."

O índio construiu aberturas na cobertura da casa, de onde pode mirar contra invasores sem ser visto. O local em que dorme lembra a cova de um cemitério, por isso é chamado de "índio do buraco". Mas ele também cava buracos fundos nos arredores de sua casa. São armadilhas camufladas na mata, com estacas de madeira fincadas na base. Algayer conhece a localização de algumas, mas quase já sofreu um grave acidente.

"Caí uma vez em um buraco estreito, de uns 40 por 90 centímetros, fundo. Ele coloca umas 4 estacas e enterra a uns 2 palmos, elas ficam firmes. Minha botina ficou raspando na estaca porque a mochila travou na boca do buraco e abri os braços para segurar", conta. Algayer sabe que as armadilhas não são para ele porque o índio já lhe apontou buracos em uma expedição.

As estacas foram colocadas para invasores que supostamente não querem o índio ali e discordam da presença da Funai. Em novembro de 2009, por exemplo, funcionários do órgão chegaram à base instalada na reserva e encontraram o local revirado, com prateleiras no chão e fogão, antena de rádio e placas solares destruídos. Mas os ataques contra o indígena ocorrem há anos, provavelmente antes que agentes da Funai confirmassem sua existência.

Segundo o indigenista Marcelo dos Santos, com que Algayer trabalhou logo no início de sua carreira, em 1991, fazendeiros que colonizaram a região passaram por cima de vestígios que o índio deixava para trás para mostrar que a área de floresta era inabitada. Santos lembra também que a Funai ficou reticente em garantir a terra para um único índio depois de sua presença ser confirmada, em 1996. "Mas a gente sensibilizou o Ministério Público e a Polícia Federal e a acabou saindo o decreto da área", diz.

O "índio do buraco" passou 4 anos vivendo de caça e coleta antes de fixar uma roça para seu sustento por medo de ataques de invasores. Segundo Santos, ele é o único que sobreviveu de um massacre (ainda não investigado) em meados dos anos de 1980, quando pistoleiros que moravam próximos aos isolados, a cerca de 30 quilômetros da sede da fazenda, ofecereram açúcar envenenado aos indígenas a mando do proprietário. "Os que sobreviveram eles fuzilaram. Sobrou um e é óbvio que ele não quer conversar com ninguém", diz Santos.

Prova de existência

Algayer já conhecia bem Santos quando embarcou em uma expedição com ele na área em que mora o "índio do buraco". Queriam provar em imagens a existência de isolados no local e para isso chamaram dois jornalistas e o cineasta Vicent Carelli, cujo documentário Corumbiara, lançado em 2009 com cenas do "índio do buraco" e de outros isolados ali perto, ganhou prêmios em festivais no Brasil e no exterior. Os participantes da produção do filme tentam resgatar a história para cobrar investigações sobre o possível massacre, além de sensibilizar proprietários de terra na região que não compreendem a necessidade de haver uma grande reserva de floresta decretada para um único homem.

Algayer entende o comportamento dos invasores porque já esteve do "outro lado": antes de se tornar indigenista, no início dos anos de 1990, ele havia sido madeireiro. "Saí de uma madeireira para trabalhar na Funai. No início, também duvidava um pouco dessa história de existir índio isolado", diz ele, que só acreditou na presença dos povos quando um colega lhe mostrou fotografias. "Aquilo me arrepiava porque eu achava que não tinha mais índio assim. Mas não era só eu que não estava bem informado. Até hoje a população não tem conhecimento desses índios ou não quer aceitar que eles existem", diz.

Com carreira em Rondônia desde o início, Algayer começou trabalhando em um projeto que resultou na demarcação da Terra Indígena Massaco, a primeira criada exclusivamente para índios isolados e sem a necessidade de contato. "Era o auge da madeira em Rondônia dentro de unidades de conservação e terras indígenas. Cidades pequenas ficavam embaixo de fumaça no fim da tarde, que era o resto da madeira queimando. Os massacos estavam dentro de uma reserva do Ibama completamente invadida, ali não havia lei", diz Algayer.

"Um ano antes de eu chegar lá já tinha posseiro, café, fruta, gado e grilagem. Madeireiros que eram do movimento político da região diziam que não tinha índio ali. Mas a gente em pouco tempo conseguiu localizar todo o território dos isolados", conta Algayer, que também participou da frente de contato com os akuntsu do igarapé Omerê, um dos afluentes do Rio Corumbiara no sudeste de Rondônia.

Os akuntsu estão quase extintos e hoje só existem 5 índios da etnia vivos. Ururu era a mais velha do grupo, dizimado entre 1970 e 1980 durante a colonização do estado, mas morreu em outubro do ano passado com cerca de 85 anos. Algayer tentou salvar a índia o quanto pôde. "A morte da Ururu foi muito triste e a gente não queria aceitar, porque queria que ela vivesse pra sempre. Mas para ela, a morte foi muito tranquila", diz ele.

Ururu estava tinha uma infecção na garganta, estava doente e fraca. "Ela ficou uma semana no hospital e voltou para a aldeia. Mas o corpo dela foi enfraquecendo e ela não queria comer, não conseguia mais andar, mas queria ir para o mato. Pedia pra levar ela pro hospital de novo, mas quando tocava no assunto sentia que brotava um ódio. Tentamos até a última hora, mas quando ela morreu vimos que estava tudo preparado", lembra o sertanista. Os familiares de Ururu enterraram seu corpo ao lado de flores e de seus dois passarinhos de estimação. Um deles havia morrido na véspera, e o outro foi morto em respeito ao ritual para a morte da índia.



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