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Expedição conta como brincam os índios

15/12/2003

Fonte: OESP, Geral, p. A8



Expedição conta como brincam os índios
São jogos criativos, que exigem habilidade, e os mais surpreendentes são de estratégia

David Moisés

Uma equipe de pesquisadores está percorrendo tribos indígenas brasileiras com uma missão que parece divertida: conhecer seus brinquedos, jogos e brincadeiras. A expedição começou há pouco menos de um mês e já passou pela aldeia camaiurá no alto Xingu, e pelas tribos bororo e pareci, no Mato Grosso. A julgar pelos primeiros relatos, o Projeto Jogos Indígenas do Brasil vai reunir mais que simples curiosidades. Entre os bororos, os pesquisadores acharam um jogo de estratégia, que tem origem provável nos incas.
"Queríamos não só conhecer e registrar coisas do universo lúdico dos índios brasileiros, mas também saber se entre eles há jogos mais sofisticados e há", informou o chefe da expedição, Maurício Lima. "Percebi que há uma riqueza cultural muito maior, ligada a uma história muito maior."
Estratégia - Adugo é o nome do jogo que mais surpreendeu Lima e seu parceiro de pesquisa, Breno Nogueira. O "tabuleiro" é traçado na areia e uma pedra representa a onça e 15 outras, os cães, colocadas em vários pontos. Um jogador movimenta a onça, com o objetivo de comer os cães (pulando casas como no jogo de damas), enquanto o oponente movimenta os cães com o objetivo de encurralar a onça e deixá-la sem possibilidade de movimentação.
Incas e chineses - Jogos semelhantes ao adugo eram praticados pelos incas, e ainda hoje os camponeses peruanos se divertem com um puma (onça parda) contra os carneiros, segundo Lima. Também na Índia e na China há jogos assim, com "personagens" diferentes. "Na Índia, é tigre contra cabras, e na China, senhor feudal contra camponeses." Até hoje, não havia registro do adugo ou qualquer jogo com este grau de complexidade entre indígenas brasileiros.
O repertório de brincadeiras e jogos e o acervo de brinquedos que os pesquisadores estão catalogando incluem desde coisas conhecidas dos não-indígenas, como piões (feitos com fruta verde e vareta), jogo da velha (peixe e gente, em vez de X e O) e perna de pau até uma engenhosa "arminha" de pressão feita de bambu, pelos camaiurás.
Na tribo do Xingu, aliás, Lima e Nogueira registraram brincadeiras curiosas, como a da mandioca - uma pilha de homens deitados vai aumentando até que o primeiro de baixo não suporte mais e derrube todos no chão - e Onde está o fogo?, em que cada participante tem sua vez de, coberto de areia, adivinhar em que direção está o sol naquele momento.
Imagens e relatos - A equipe da expedição é composta pelos dois pesquisadores e mais quatro profissionais de vídeo e fotografia, que vêm registrando em imagens as informações coletadas. O Projeto Jogos Indígenas do Brasil deve ser concluído em abril, e até lá a expedição deve passar pelas aldeias Terena (MS), Kanela (MA), Guarani (SP) e Maxakali (MG). O projeto está orçado em R$ 500 mil.
No fim, os organizadores pretendem criar réplicas de jogos para enviar a museus do Brasil e de outros países, produzir um documentário para TV e estimular pesquisas mais aprofundadas sobre os dados coletados. Um dos jogos será escolhido para ser reproduzido em 20 mil kits a serem distribuídos em escolas públicas, conforme Lima.
Relatos dos pesquisadores e várias imagens estão sendo transmitidos via fone e internet para o Portal Estadão (www.estadao.com.br), que criou um site especial para acompanhar a expedição. Um hot site da própria expedição foi criado pela Bosch, que patrocina o projeto com benefícios da Lei de Incentivo à Cultura.


Brinquedos, jogos e brincadeiras
Os pesquisadores do Projeto Jogos Indígenas do Brasil fizeram uma lista das brincadeiras e jogos dos camaiurás:

Kap - A palavra significa marimbondo e, na brincadeira, meninos e meninas se separam em dois grupos. Um deles representa as pessoas da aldeia enquanto o outro grupo edifica na areia a casa do marimbondo (um monte no meio do círculo), imitando seu zumbido característico. Em seguida, o primeiro grupo "descobre" a casa de marimbondo e um de seus integrantes vai destruí-la.
Assim, é atacado pelo grupo que representa os marimbondos e tem de sair correndo, perseguido pelos "insetos". Beliscões fazem as vezes das ferroadas dos marimbondos e os perseguidores só param quando sua vítima pára de correr. Então vai outro destruir novamente a casa, sendo também atacado, e assim sucessivamente. O interessante, segundo Lima, é que a intensidade das perseguições aumenta gradativamente, chegando a formar "uma pilha de crianças sobre aquela que é alcançada", conta o pesquisador.
Onde está o fogo? - As crianças camaiurás cavam dois buracos na areia, ligados por um túnel. Uma delas põe a cabeça num dos buracos e é então completamente coberta de areia. Por este duto, a criança respira e ouve as demais, que vão provocá-la com zombarias e perguntar "onde está o fogo?"
Quem estiver sob a areia tem de dizer em que direção está o sol naquele momento, e sua vez termina quando, enfim, a resposta estiver correta.
Sucuri - Sobre um toco ou rocha grande pendendo sobre o lago, o "pescador" espera que um colega mergulhe e passe naquelas proximidades, para então pular e tentar capturá-lo. Mas há um bom preparo nesta brincadeira: primeiro deixa-se a água bem turva, agitando-se a lama do leito do lago, de modo que o "caçador" tenha muita dificuldade para ver sua "presa" nadando no fundo.
Luta na água - Uma criança fica de pé sobre os ombros de outra, para lutarem contra a dupla adversária. As crianças que estão em cima se dão as mãos e tentam derrubar o oponente.
Mandioca - Um homem deita no chão e os demais deitam por cima, formando uma pilha até que o primeiro não agüente mais o peso e deixe todos caírem no chão.
Mojarutap Myrytsiowit - É o equivalente à cama de gato, em que o jogador forma figuras, como morcegos e peixes, com um cordão trançado nas duas mãos.
Os pesquisadores registraram pelo menos dez figuras diferentes inventadas pelos camaiurás, que demonstram excepcional habilidade manual e originalidade.
Ui'ui - Um fio fino e resistente, feito com palha de buriti, tem uma parte enterrada na posição horizontal. O organizador do jogo é quem cobre o fio, sem deixar que os demais vejam em que direção ele se estende sob a areia.
Quem descobrir, será o vencedor. O organizador mantém na mão uma extremidade mas isso não significa que o fio esteja estendido em linha reta em relação ao pedaço visível. Geralmente ele faz uma curva para enganar os participantes. O organizador faz movimentos rápidos para frente, fazendo com que a ponta oculta do fio apareça e suma sob a areia numa fração de segundo.
Seria fácil, se não houvesse espalhadas na areia, bem perto, várias pontas falsas de buriti para confundir os jogadores.
Jawari - Usando um lançador de madeira, um jogador atira sua lança em direção a um cercado feito com varas para derrubá-las. Atrás desse cercado estão perfilados outros jogadores, que não podem sair. À medida que o atirador vai derrubando as varas, os demais jogadores vão ficando desprotegidos e são obrigados a evitar as lanças desviando-se delas, mas sem poder mover os pés. "Alguns saem machucados deste jogo", observa Lima.
Mocareara angap - É uma espécie de arma de pressão feita com um tubo de bambu e polpa do fruto do pequizeiro. Com a polpa grossa, os índios fazem dois tampões, um em cada extremidade do tubo. Com uma vareta de imbira, um dos tampões é socado para dentro, empurrando o ar e forçando a saída do tampão que fica na outra extremidade. A forte pressão faz com que o tampão seja expelido com muita força e velocidade, como um projétil. "Eles brincam de caçada. Um deles se esconde no mato e os outros vão atrás. Quando o localizam, disparam para acertá-lo", conta Lima.
Y'ym - Pião feito com uma fruta comestível da região, a yua'apong, e uma vareta de bambu. Y'ym é palavra usada para designar qualquer coisa que gire. As crianças brincam fazendo os piões girar, juntos ou não, cuidando para que o giro seja o mais belo possível.
Y'ym - Zunidor feito com um disco de cabaça que gira (daí o nome Y'ym, como o pião) desenrolando e enrolando sucessivamente um cordão de tucum. Crianças da cidade costumam brincar disso com botões grandes e barbante. Entre os camaiurás, o disco é feito com o fundo da cabaça, tem dois furos por onde passam a ida e a volta do cordão, cujas pontas são emendadas. Assim, o cordão duplo fica esticado entre as duas mãos (contornando um dedo em cada extremidade) e o disco fica no meio. Nele os camaiurás entalham dentes, que produzem um zunido quando o giro é mais rápido.
My'yta - Perna de pau feita de madeira e tiras de embira, que servem de apoio para os pés. O mais engenhoso do brinquedo é o uso de um nó que possibilita o ajuste da tira, para crianças mais altas ou mais baixas. Este tipo de brinquedo pode também simular a pegada de aves e outros animais.


Os mais jovens gostam mesmo é de futebol
Cabe aos adultos ensinar e manter as brincadeiras típicas das tribos indígenas

Os jogos e brincadeiras tradicionais dos bororos e camaiurás podiam até ter desaparecido nos últimos anos por falta de interesse das crianças e jovens. "Eles querem jogar futebol, querem torcer para os times das grandes cidades", conta Maurício Lima. "Mas os adultos estão ensinando as crianças."
A competição está presente na diversão dos indígenas brasileiros como em qualquer sociedade, analisa o pesquisador, que há 14 anos investiga jogos e brincadeiras no Brasil. "Eles são iguais à gente, também têm disputa, também querem ganhar", diz. Mas há muitas situações em que não há vencedores e perdedores.
Assim é o ywa ywa, por exemplo. Neste jogo, são feitos discos de fibra de buriti de diversos tamanhos. Um grupo de crianças posta-se com seus arcos e flechas enquanto outro grupo joga o disco maior, rolando diante dos atiradores, que têm de acertá-lo. "Eles têm de pegar o disco, mas só podem pegá-lo pelas flechas que conseguirem espetar", explica o pesquisador. Em seguida, são atirados os outros discos, em ordem de tamanho decrescente. Quando conseguem "capturar" o menor deles, os grupos trocam de lado. "A comemoração é enorme."
Mas o que chamou atenção dos pesquisadores, segundo Lima, foi a criatividade dos indígenas. "Os camaiurás se destacaram pelas habilidades manuais e os Bororos chamaram atenção pela complexidade de seu jogo da onça", afirma. "Vi como eles são ricos na sua cultura." (D.M.)

OESP, 15/12/2003, Geral, p. A8
 

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