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Carne de jegue vira item de exportacao no Ceara

20/06/2004

Fonte: O Globo, Economia, p.41



CARNE DE JEGUE VIRA ITEM DE EXPORTAÇÃO NO CEARÁ
Município de Santa Quitéria instala abatedouro de jumentos, que serão vendidos para Europa, Japão e China

FORTALEZA. O município de Santa Quitéria, a 206 quilômetros de Fortaleza, prepara-se para entrar no roteiro dos chefs internacionais especializados em comida exótica e também na mira de grupos protetores de animais. É que começa a funcionar na cidade, a partir de julho, o primeiro frigorífico do Nordeste para abate de jumentos, cavalos e burros.
Como não faz parte do cardápio do brasileiro, a produção será toda exportada para Europa, Japão e China. A idéia é do empresário Elimárcio de Bastos Belchior, da Equus Agroindústria, empresa com base em Itaubim (MG), que atua no ramo há quatro anos.
Faturamento mensal está calculado em R$ 1 milhão
Três mil cabeças serão abatidas mensalmente no frigorífico, gerando 150 toneladas de carne e um faturamento estimado em R$ 1 milhão. Se operar com toda a capacidade instalada, em seis meses Belchior terá recuperado o investimento de R$ 6 milhões.
A parceria com a Prefeitura de Santa Quitéria foi estratégica. A indústria aproveitou em parte as antigas instalações da Companhia Industrial Agropecuária (Conape), que estava desativada. A localização também é estratégica pela proximidade de dois grandes portos, o de Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza, e o do Mucuripe, na capital. O frigorífico de eqüídeos do Ceará é o oitavo do Brasil. O maior deles funciona no Paraná. Os outros estão em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.

ONG ALERTA PARA RISCO DE EXTINÇÃO DA ESPÉCIE
Animais que estiverem à toa pela cidade podem ser abatidos
FORTALEZA. A exportação de carne de jumento, no entanto, já enfrenta resistência da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa). A coordenadora da entidade, Geuza Leitão, afirma que a operação coloca em risco a espécie.
— Jegue é o símbolo do Nordeste — lembra Geuza, acrescentando que os animais serão mortos a pauladas ou machadadas, contrariando uma lei estadual de 1995 que determina o abate com pistola pneumática, que evita o sofrimento do animal.
— Nosso abate será humanitário. Somos os maiores interessados na preservação da espécie para não pôr em risco nosso negócio — disse o empresário Elimárcio Belchior.
Jegue do Nordeste é menor do que a média nacional
O eqüídeo, segundo Belchior, faz parte de uma indústria de aproveitamento. Os animais levados ao abate são os chamados excedentes, que são encontrados à toa cruzando as rodovias ou ruas das cidades
Belchior diz que o controle de qualidade da carne segue as normas do Ministério da Agricultura. Segundo ele, veterinários fazem vistorias nos animais apreendidos e, antes mesmo de serem transportados, é emitida uma Guia de Trânsito Animal (GTA), uma espécie de controle de qualidade inicial. Ao chegar ao frigorífico, outras inspeções são feitas.
O jegue do Nordeste é pequeno. Atinge em média um metro de cumprimento e 100 quilos. Raças como Pêga e Paulista, de Minas Gerais e São Paulo, chegam a 1,5 metro e até 220 quilos. (Isabela Martin)

DESBRAVADOR MARCA-HORA TEM FÃ-CLUBE
Animal de tantas denominações — jegue, apaga-fogueira, agüenta-seca, marca-hora, entre mais de cem — quanto utilidades, o jumento nordestino tem fã-clube. Seus integrantes não só exaltam as funções sociais do animal, mas sobretudo a preservação da espécie. Entre os defensores, está o padre Antônio Vieira (homônimo do jesuíta português). Autor do livro “O jumento, nosso irmão”, lembra que o animal desbravou o Nordeste, ajudou a construir estradas, açudes, ferrovias e “transportou Nossa Senhora”. O relinchar a cada meia hora faz o sertanejo atribuir outra função ao animal: “relógio de pobre”, uma das denominações nordestinas catalogadas pelo padre.

O Globo, 20/06/2004, p. 41
 

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